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O que precisamos aprender com a Lei Aldir Blanc?
James Rios
12.AGOSTO.2020
Prof. Me. James Rios Doutorando em Literatura pela UEL Diretor de Cultura da UENP Prof. Me. James Rios Doutorando em Literatura pela UEL Diretor de Cultura da UENP

A pandemia da Covid-19 modificou as nossas relações e nos relegou, no mínimo, ao distanciamento social. Mais em casa, buscamos nas séries o remédio para os dias tediosos e as lives, na internet, surgem como possibilidade de recriar o clima das baladinhas de finais de semana. Consumindo os serviços das plataformas de streaming como a Netflix, alimentamos uma cadeia econômica da qual se servem também os músicos famosos e nos esquecemos, quem sabe, daqueles artistas que, sem a deliberada fama, não encontram nesses veículos possibilidades para garantia de sua subsistência.

Precisamos buscar o entendimento de que há vida fora das telas e das redes sociais – vale frisar o clichê. Há um sistema cultural que pulsa, organicamente, em todo território nacional. Ocorre que, na maioria das vezes, não concebemos como artista a dona Maria, artesã, e o senhor João, escultor de gravetos. Não concebemos como fazedores de cultura o malabarista de semáforo, tampouco os povos de terreiro – verdadeiros embaixadores da cultura africana no Brasil, já dizia mestre Candieiro.

Sancionada recentemente, a Lei Aldir Blanc (14.017/2020) injetará R$3 bilhões no setor cultural ainda este ano. Para além do repasse desse expressivo valor aos agentes e espaços culturais de pequeno porte, o dispositivo constitucional é, mais que um convite, uma ótima oportunidade à reeducação do nosso olhar para com a cultura. Enquanto cidadãos, devemos aferir valor simbólico e monetário aos povos indígenas, às escolas de samba, aos artistas de rua, aos mestres de capoeira, aos mestres populares, às companhias de teatro locais, aos músicos, às bandas de baile e de todos os profissionais que o circundam – iluminadores, contrarregras, sonoplastas, bilheteiros.

Enquanto gestores culturais – sim, esta Lei tem muito mais a nos ensinar do que imaginamos – devemos avaliar a nossa gestão. Ao realizarmos o mapeamento cultural dos nossos municípios para viabilizar o recebimento dos recursos previstos, estamos tomando conhecimento de uma realidade até então desconhecida. Estamos descobrindo os artistas e agentes culturais que alimentam o nosso cotidiano e fazem pulsar a vida em forma de Arte. Por isto, encontramo-nos no momento mais oportuno para reconhecermos as práticas culturais pouco valorizadas e alinhavarmos políticas públicas mais arrojadas com vistas ao atendimento pleno desses segmentos pós-pandemia.

Aldir Blanc não era popular nas redes sociais, tampouco nas principais plataformas de streaming. Morreu vítima da Covid-19. No entanto, antes disso, ainda que tenha sido reconhecido e aclamado pela crítica musical, padeceu ao ser desassistido pelas políticas culturais que deveriam estar ao seu alcance e acessível a todos os trabalhadores da cultura. O Estado brasileiro pouco fez por ele e pouco fez pelos trabalhadores da cultura. Conjugada à vida do músico, a Lei Aldir Blanc deve ser a nossa escola. Precisamos aprender com ela para reconhecermos a importância dos que ficaram. É tempo de aprender.

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